Nunca pensei eu passar por uma situação de adversidade com uma torcida de alguma equipe do interior do Estado. Ainda mais dentro do Beira-Rio. Em primeiro lugar porque eu nunca tinha visto torcida das equipes de fora da Região Metropolitana de Porto Alegre ou de Caxias do Sul no Gigante.
Mas aquele domingo frio se desenhava diferente dos outros. Eu trabalhava como chefe da fiscalização das roletas de acesso ao Estádio Beira-Rio e me preparava, ao lado do grande amigo e colorado Jorge Euclídes, vulgo Jorginho, para a vistoria tradicional nos equipamentos. Era dia de “jogo pequeno”, como dizíamos nas partidas onde o público previsto era abaixo de 10 mil espectadores. O adversário era o fraco Brasil de Pelotas, que na época necessitava de vitória em cima do Internacional para garantir uma vaga na segunda fase do Gauchão. O Inter já estava com a vaga assegurada e jogaria naquela tarde de sangue doce.
Quando eu e o Jorginho nos preparávamos para sair da sede da Secretaria Social, hoje chamada de Central de Atendimento ao Sócio, demos de cara um bando de torcedores do time da Zona Sul do Estado. Eram muitos. Nem em jogos contra o Caxias ou o Juventude presenciara tantos torcedores de um time interiorano. Eram, sem brincadeira, uns 300. E como trajávamos a camiseta do Inter, fomos xingados. O Jorginho, que é daqueles baixinhos metidos a brigões, mas que na hora H dão no pé, falava baixinho pra mim: “vou mandar essas bichonas tomarem no cu”. Eu, que só gostava de tumulto com gremistas naquela época um tanto quanto negra da minha vida, retruquei: “fica frio cara, nós vamos levar uma sova destes caras”. Consegui retardar o tumulto por pelo menos alguns segundos.
O Jorginho havia se acalmado. Mas um outro grupo, infinitamente menor resolveu voltar a nos provocar. Os aproximadamente 20 pelotenses começaram a nos xingar. A resposta do Jorginho foi seca, sarcástica e magnífica, mas que gerou uma das vezes que corri mais rápido na minha vida. “Olhem aqui seu bando de veados (mostrou o escudo do Inter com, até então, as quatro estrelas, representando três títulos do Campeonato Brasileiro e um da Copa do Brasil). Um, dois, três, quatro. Isso sem contar os Gauchões. Bando de boiolas de merda que nunca ganharam nada e de ninguém. E vão levar um laço do Colorado dentro de campo!”. Deu. Era o estopim. Os caras vieram correndo pra cima da gente. E nós, pernas pra que te quero. Não poderíamos dar a volta no Estádio nem ir para fora senão não poderíamos voltar para vistoriar os outros portões. Tivemos que subir em desabalada carreira a rampa que dá acesso às cadeiras. Como tínhamos as chaves, abrimos rapidamente a grade e ficamos dentro do Gigante, ainda adormecido. Tivemos de acionar a segurança do Estádio, via rádio, que chamou a Brigada Militar para poder nos acompanhar no trabalho.
Aquele foi realmente um dia inusitado, tirando o resultado dentro de campo: 3 a 0 para o Inter. Mas foi uma partida dentro do Beira-Rio em que havia mais torcedores adversários do que colorados. E foi a única vez que corri de torcida adversária. E o pior, dentro de casa.
PS: E o Talis Ramon? Deve estar fritando um soinho, por isso não comparece mais no blog.