A primeira crônica da série, como antecipado, é sobre Thomas Ravelli, controverso goleiro sueco.
Thomas Ravelli
Eu nunca sentira tanta raiva de alguém em minha incipiente vida de criança de nove anos quanto acalentei por um tempo pelo Thomas Ravelli. Pra quem não lembra, era o goleiro da Suécia que jogou duas vezes contra o Brasil na Copa de 1994. Aquele riso irônico, ébrio, parecia palhaço de circo: ajudado pela camisa de arqueiro de cores diversas das de seu país, o pouco cabelo que tinha desgrenhado e o físico mais próximo de um estereótipo de padeiro do que de goleiro. A raiva durou alguns dias: do empate em um a um na primeira fase – com gols de Romário e do gigante Kennet Anderson –, à (e por causa da) redenção canarinho na semifinal. Fui salvo pelo mesmo Romário, aos trinta e cinco do segundo tempo; gol de cabeça entre os longilíneos zagueiros nórdicos. O riso do Ravelli sumiu, o rosto nublou, ensimesmado. E meu rancor esvaiu-se em minutos.
Goleiros como Thomas Ravelli não nasceram para ganhar títulos. Ele pertence ao mesmo grupo de Jorge Campos e Higuita: são os bobos da corte do futebol; não possuem a categoria nobre dos grandes defensores. E o talento que carregam, talento indiscutível, é velado pela extravagância, pelo estilo ou visual peculiar. Nenhum goleiro havia feito com o Brasil o que ele fez. Nos dois jogos contra o contestado time de Parreira, Ravelli desfilou seu leque de caras e bocas: dançou como uma dançarina dos antigos cabarés, chutando o ar, alternando as pernas esticadas, após grande chance desperdiçada por Zinho; sorriu para as câmeras depois de brilhante defesa; bateu sarcásticas palmas para os atacantes brasileiros que arriscavam finalizações sistemáticas e estéreis para longe do gol. A sagrada camisa brasileira era zombada por um jogador mediano, ato subversivo dos mais ousados. Como a maioria dos subversivos, Ravelli sairia derrotado. Mas, da mesma forma que eles, a história guardou um lugar cativo pro sueco.
Goleiros como Thomas Ravelli, infelizmente, estão com os dias contados. Assim como atacantes da estatura de Romário e Maradona não serão mais os melhores do mundo. Em algum momento da década de noventa o futebol sofreu uma transformação no desempenho físico dos atletas, e a lei do mais alto, forte e rápido começou a tomar terreno. Aqueles que dependiam quase exclusivamente da técnica ou que renegavam a disciplina estóica, declinaram. O futebol se aproxima cada vez mais de outros esportes: há um nivelamento maior; mas isso nem sempre é bom.
Voltando ao norte europeu: aquela seleção sueca não foi e dificilmente será superada pelos sucessores. Cada vez mais altos, cada vez mais fortes, mas carentes da malandragem de Ravelli – dono, aliás, do recorde de aparições com a camisa amarela do país: 143 –, da técnica de Brolin e da ousadia de Dahlin. Nem o veterano Larsson – que em 1994 banhara os cabelos com cera de abelha e assombrara a zaga búlgara na disputa pelo terceiro lugar, com as madeixas endurecidas balançando feito cantor de reggae filho de pais brancos – consegue fazer os atuais companheiros relembrarem aqueles tempos.
Para piorar, Ravelli, Jorge Campos, Higuita e companhia não deixaram herdeiros. Ruim para o futebol e para quem gosta dele. Cada vez mais sério e previsível. Agradeço a Jorginho, que cruzou aquela bola, a Raí, que não a alcançou, aos ineficientes zagueiros suecos e, sobretudo, a Romário: autor do gol. O gol que promoveu minhas pazes com Ravelli, que iniciou até certa admiração pelo seu futebol: uma admiração solidária e penalizada; a admiração magnânima daquele que vence por aquele que perde. Admiração que só uma criança de nove anos que vai disputar a final da Copa do Mundo com a Itália pode sentir.
Guilherme
É cara, Ravelli irritou e muito naquela Copa. HJ dou risada da ironia dele. Mas se deu mal… Belo texto
Abs
Buenas! Com certeza essa foi a melhor copa… por sermos criança na época, a mágia sobre o futebol era maior. Atualmente estamos nos aproximando do Rugby…Vamos chegar lá certamente…hehehe…
Muito bacana essa idéia da série sobre a copa de 94.
Abração!!
Pedro.
ótimo texto!
Me fez recordar muito a copa de 94, seção nostalgia total.
Parece mesmo que os dribles entusiasmados, a genialidade ou mesmo as extravagâncias do futebol ficaram no passado. Deram lugar a tática, a organização, ao profissionalismo…deixaram de lado o inusitado.
abraços!
BOm o texto..tava aqui procurando por noticias do ravelli e achei esse site! =D
Eu lembro mto bem do Ravelli..eu, com meus 7 anos, ao contrario de vc, fikei fa dele desde o começo, sempre achei massa esse tipo de jogador, ate hj sou fa d+ do Ravelli, ainda mais q eu sou goleiro, me inspirei mto nele!